Cânion é o nome dado a um vale profundo e estreito, marcado por paredes íngremes e escarpadas. O que essa definição não revela, porém, é o potencial oculto que alguns desses ambientes carregam. Entre os municípios paulistas de Bofete, Guareí e Torre de Pedra, um cânion me chamou atenção não apenas pela paisagem, mas pelas possibilidades que surgiam no seu mapa topográfico e nas primeiras observações de campo: a existência de cavernas ainda desconhecidas.

Inspirado pelo meu orientador, Marcelo dos Santos Silvério, transformamos esse ambiente em objeto de estudo pelos anos de 2023 e 2026, buscando responder uma pergunta central: o cânion situado entre esses municípios possui cavernas inéditas ainda desconhecidas pela ciência? A resposta é sim. Os resultados completos serão apresentados no meu trabalho de graduação “Potencial Espeleológico do Cânion Situado Entre Guareí, Bofete e Torre de Pedra, SP”, que será publicado como artigo na Revista Perspectiva, da Fatec Itapetininga.
Ao longo de todas as prospecções, vale o destaque a ajuda voluntariosa de Luiz Cruz, onde não haveria a possibilidade de conclusão desse estudo sem seu apoio. Luiz é espeleólogo do Grupo de Espeleologia Laje Seca (GELS) e responsável pelos croquis e mapas espeleotopográficos produzidos durante essa pesquisa e de tantas outras. Também participaram das atividades, numa parceria entre o Grupo de Espeleologia Laje Seca, o Grupo Espeleológico dos Tecnólogos de Itapetininga e o Instituto de Conservação Ambiental do Morro Agudo: Maria Yasmin, Rafael Silvério, Marcos Silvério, Camilly Portela e Matheus Lima, percorrendo áreas pouco conhecidas movidos pela curiosidade científica e pelo desejo de compreender melhor esse patrimônio natural.

As incursões pelo cânion estiveram longe de ser simples e tranquilas. Entre trilhas tomadas pela lama, mata fechada, muitos arranhões pelos espinhos, encostas íngremes, javalis, vacas e enxames de abelhas, cada cavidade encontrada exigiu esforço físico e cautela. Algumas experiências, inclusive, ficaram fora das 20 páginas do artigo científico, mas ajudam a revelar a dimensão humana da pesquisa, agora no novo site do GELS.
Na Toca do Cheiro, por exemplo, foi necessário esvaziar completamente os pulmões para conseguir me arrastar sem tocar o teto arenítico da cavidade, evitando desprender sedimentos e correr risco de soterramento. A entrada da caverna possuía apenas cerca de 20 centímetros de altura. Já no Abrigo do Mel, a equipe precisou correr mata adentro após perceber um enxame de abelhas sob nossas cabeças. Em outra prospecção, roncos e forte movimentação na vegetação nos obrigaram a abandonar a atividade diante da possibilidade da presença de javalis. Houve ainda inúmeras ocasiões em que atolamos até os joelhos na lama antes de encontrar caminhos mais seguros rumo às cavidades. E isso não é um terço de tudo o que vivemos!

Mais do que relatos de aventura, essas experiências ajudam a demonstrar o quanto esse território ainda é pouco conhecido cientificamente. O interior de Guareí, Bofete e Torre de Pedra evidencia que o arenito, historicamente subestimado pela espeleologia brasileira, possui potencial científico, ecológico e paisagístico muito maior do que durante décadas se imaginou.
Além das cavernas identificadas neste estudo, outras cavidades da região já enfrentam problemas relacionados à ausência de manejo e proteção. A própria Caverna de Guareí, que também já estudamos, sofre com visitas sem controle, muitas vezes sem qualquer preocupação com a fauna subterrânea, sedimentos, estruturas areníticas frágeis e a geoconservação. Ambientes subterrâneos são delicados, e sua utilização sem planejamento pode provocar impactos silenciosos e permanentes.

Outro ponto preocupante envolve os Abrigos Sarandi, de grande relevância arqueológica e paleoambiental regional, mas ainda pouco inseridos em registros e debates espeleológicos mais amplos, com vídeos de escavações e visitas indevidas e sem autorização facilmente encontrados na internet. Essa ausência representa uma lacuna importante para a arqueologia e paleontologia paulista, especialmente em uma região que demonstra crescente relevância científica.
Diante disso, torna-se necessário que o poder público de Guareí, Bofete e Torre de Pedra passe a enxergar essas cavidades como patrimônio natural, científico e cultural repletos de potencial. A expansão do pinus e do eucalipto, o avanço do pasto, a mineração e as visitas desordenadas representam ameaças reais a esses ambientes. Em breve, fotos, mapas e detalhes das cavidades serão divulgados junto à publicação do artigo, reforçando a importância de proteger um patrimônio subterrâneo que, até pouco tempo atrás, permanecia praticamente invisível. O interior paulista é rico, as cavernas de arenito são incríveis, a espeleologia é uma ciência única e plural que caminha com todas as outras.
Esse é meu manifesto.


